ORIENTAÇÃO PROFISSIONAL


A palavra trabalho possui muitos significados e é compreendida principalmente como exercício da atividade humana, significando a ação do homem para sobreviver e realizar-se no meio social. Segundo Bueno (1988) apud Krawulski, (1998), o trabalho, significa:
“exercício, aplicação de energia física em algum serviço, numa profissão, ocupação, mister, ofício, labuta, esforço; esmero, cuidado, dedicação, feitura de uma obra; a própria obra já executada; livro, compêndio; escultura, pintura; aflição, sofrimento; parto”.
Indo mais além, os aspectos psicológicos e biológicos do trabalho, em conjunto, conferem ao mesmo uma peculiaridade sociológica, já que indivíduos e grupos se associam em um esforço comum para favorecer, ao mesmo tempo, os vínculos de cooperação e solidariedade assim como o progresso. O trabalho, gera os artefatos necessários para a subsistência do homem, gera a vida social e é por ela determinado (FERRETI, 1988).
O trabalho é entendido como meio de propiciar a satisfação das necessidades, mas também de permitir a procura da auto realização. Essa compreensão se dá a partir de um conceito amplo, que conceitua o trabalho principalmente como a ocupação com qualquer atividade, voltada a um fim específico, paga ou não, vinculada ou não ao mercado formal de trabalho. (KRAWULSKI, 1998)
Dessa maneira, o trabalho é o que move o mundo e define a vida de muitas pessoas. O sentimento de realização ou não é muito influenciador na capacidade e na eficácia do trabalhador, e por isso a Orientação Profissional é importante, para que a maior quantidade possível de pessoas se sintam aptas e tenham prazer e vontade de realizar seus respectivos trabalhos.
Falar em escolha de profissão, para muitos, é motivo de angústia, e isso se deve a diversos fatores sociais, pessoais e familiares, desde uma simples dúvida entre duas profissões até o sentimento de obrigação a um determinado futuro.
O histórico da Orientação Profissional reside primeiramente na era medieval, na relação entre mestres e aprendizes. Em seguida, surge a prática da orientação profissional mais próximo à como conhecemos hoje, na época da revolução industrial, com o objetivo de detectar trabalhadores inaptos a execução de determinados serviços (SPARTA, 2003).
O primeiro Centro de Orientação Profissional norte-americano (Vocational Bureau of Boston) foi criado entre 1907 e 1909. Frank Parsons, em seu livro Choosing a Vocation definia três passos que deviam ser seguidos no processo de Orientação Profissional: “a análise das características do indivíduo, a análise das características das ocupações e o cruzamento destas informações”. Com isso, a Orientação Profissional se baseava no oferecimento de informações pessoais e na promoção do autoconhecimento (SPARTA, 2003).
Sparta (2003) traz que entre os anos de 1920 e 1930, a influência da Psicologia Diferencial e Psicometria foi forte na prática de Orientação Profissional, pois neste período entre guerras, foram desenvolvidos muitos testes de inteligência, aptidões, habilidades, interesses e personalidade. Essa prática psicológica tinha como objetivo os diagnósticos e prognósticos do orientando para indica-lo a profissões e ocupações mais apropriadas.
A partir da década de 1950, diversas teorias sobre a escolha profissional começaram a surgir. O livro Occupational Choice, de Ginzberg , Ginsburg, Axelrad e Herma deu início a primeira Teoria do Desenvolvimento Vocacional como sendo um processo evolutivo que acontece no período entre os últimos anos da infância e os primeiros anos da idade adulta.
No Brasil, a Orientação Profissional tem como marco principal de origem a criação do Serviço de Seleção e Orientação Profissional, em 1924, para os alunos do Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo. “No ano de 1942, a lei Capanema, sobre a organização do ensino secundário, estabeleceu a atividade de Orientação Educacional e atribuiu a ela o auxílio na escolha profissional dos estudantes” (LOURENÇO FILHO, 1955/1971 apud SPARTA 2003). Além disso, o Brasil apresenta diversos marcos em relação a Orientação Profissional, incluindo a criação da Associação Brasileira de Orientadores Profissionais (ABOP) em 1993.
A Orientação Profissional sempre esteve inserida num contexto social, político e econômico. Segundo Lucchiari (1993), a escolha de uma profissão é uma necessidade diante de um mundo de cursos e especializações que tem surgido. Isso também implica na construção da identidade de um jovem diante das escolhas que precisa fazer. Nesse período o jovem em conflito está procurando se conhecer melhor, e alguns valores são postos pela sociedade como primordiais para os adolescentes vivenciarem, como a preocupação com a natureza, ecologia, humanidade (fome e pobreza), política, entre outros.
“A orientação profissional tem por objetivo facilitar o momento da escolha ao jovem, auxiliando-o a compreender sua situação específica de vida, na qual estão incluídos aspectos pessoais, familiares e sociais. É a partir dessa compreensão, que ele terá mais condições de definir qual a melhor escolha – a escolha possível – no seu projeto de vida” (Lucchiari, 1993).
Lucchiari diz ainda que: “Para o jovem definir o que quer vir a ser é preciso estar claro a ele quem foi, quem é e quem será”. Isso, porém, não é uma tarefa fácil, pois num mundo onde o trabalho e a preparação para o trabalho são tão influentes, mal se tem tempo para o autoconhecimento.
O psicólogo tem o papel de facilitar a escolha, ou seja, participar sendo um amparo ao pensamento e coordenando o processo de escolha, o que não significa orientar, já que estes profissionais também não conhecem o melhor caminho para cada pessoa. A decisão é exclusiva do/da adolescente, ele/ela mesmo(a) encontrará o caminho que melhor o cabe. A escolha implica em decidir entre várias opções, a que indica ser melhor naquela ocasião. De acordo com Lucchiari (1993): “cada escolha faz parte de um projeto de vida que vai se realizando. Nossa vida se define pelo futuro que queremos alcançar”.
Então, parte-se do entendimento de que o homem é livre para escolher, dentro de sua situação específica de vida, o que por si só pode configurar-se como um limite, uma vez que o acesso à informação e o entendimento de que existe uma possibilidade de escolha pode não ser algo presente na vida de todos os jovens. Isso molda, também, o trabalho do psicólogo, uma vez que, sua técnica e roteiro de trabalho dependerá do acesso e do leque de conhecimentos do sujeito. Ele pode, por exemplo, precisar apresentar as mais diversas profissões e áreas de trabalho antes de auxiliar na escolha em si.
Além de todos estes fatores, os desejos de outras pessoas além do jovem em questão pesam na escolha profissional deste. A escolha entre o dinheiro e a paixão, entre fazer o que trará retorno financeiro e fazer o que ama é muito influente, assim como a opinião dos pais e familiares sobre essa escolha. Muitas famílias desejam que seus jovens sigam no “negócio da família”, ou que escolham tal profissão por trazer mais dinheiro. Esses motivos são os que mais levam os jovens a procura de práticas de Orientação Profissional.
Quando se fala no trabalho de escolha, os seguintes aspectos são facilitadores:
1-      Conhecimento de si mesmo:  
·         Quem sou eu (quem fui, quem sou, quem serei);
·         Qual o meu projeto de vida;
·         Como me vejo no futuro desempenhando o meu trabalho;
·         Expectativas da família X expectativas pessoais;
·         Quais são meus principais gostos, interesses e valores;
2-      Conhecimento das profissões:  
·         O que são, o que fazem, como fazem, onde fazem;
·         O mundo do trabalho dentro do sistema político – econômico vigente;
·         As possibilidades de atuação;
·         Visita a locais de trabalho, a cursos e laboratórios de pesquisa da universidade;
·           Informações sobre currículos;
·         Entrevistas com profissionais;
3-      Escolha propriamente dita:  
·         Decisão pessoal;
·         Viabilizar a escolha;
Quanto às opções em si, o jovem normalmente sabe de opções limitadas de cursos, porém, há mais de 120 possibilidades existentes. Além disso, a orientação profissional (OP) tem se estabelecido como prática profissional também.
Sabe-se que deveria acontecer um trabalho interdisciplinar, já que a orientação envolve questões pertencentes a cada área específica, por isso, o orientando deveria ter acesso às mais diversas áreas de maneira efetiva. Normalmente nas escolas particulares há um psicólogo e/ou orientador educacional
A Orientação Profissional, em geral, é feita com base em aplicação de testes de interesse e aptidão, palestras e visitas a universidades e locais de trabalho. Porém “só os testes não respondem às dúvidas dos jovens, que acabam voltando a procurar outros serviços de orientação profissional, uma vez que ainda desejam e esperam respostas objetivas sobre seu futuro profissional” (SOARES, 2002).
Para a realização da Orientação Profissional, utilizam-se avaliações psicológicas, testes psicológicos e testes específicos para o objetivo. Dentro do âmbito clínico à prática do psicólogo incluirá “estabelecimento do contrato de trabalho, aspectos éticos envolvidos no atendimento e aplicação de testes -quando necessário.
A Orientação Profissional pode acontecer nos mais diversos campos, como por exemplo a escola, a empresa, a clínica, etc, e pode acontecer em grupo ou individualmente. Ela pode ser considerada uma “psicoterapia breve”, por acontecer num período entre 8 e 20 encontros, e possuir um objetivo específico. Se necessário, é possível fazer o encaminhamento para a psicoterapia.
É próprio do adolescente o convívio em grupos e turmas, por isso, é efetivo o trabalho de Orientação Profissional dessa maneira, além disso existe a possibilidade de compartilhar sentimentos de dúvida, confusão e insegurança em relação a escolha profissional e ao seu futuro. Cada participante do grupo é um facilitador, auxiliando no conhecimento que cada membro busca de si mesmo (LUCCHIARI, 1993).
A orientação Profissional surgiu como uma área favorável no desenvolvimento e aperfeiçoamento de instrumentos psicológicos, assim como testes psicométricos e técnicas projetivas e outros meios técnicos (como dinâmicas de grupo, materiais lúdicos, etc) com a finalidade de programar um método de avaliação e intervenção cada vez mais personalizado. Contudo, ocorreram diversas mudanças na forma com qual o profissional da Orientação manuseia estes instrumentos em sua prática de atendimento e, principalmente, na importância que ele atribui a estes instrumentos. (SPARTA; BARDAGI; TEIXEIRA; 2006)
A avaliação psicológica depende de conexões teóricas que a direcionam. Quando se aborda modelos de avaliação, é preciso identificar ajustes teóricos responsáveis, em última instância, pelo conteúdo do que deve ser avaliado, como deve ser avaliado e que uso deve ser feitos dos resultados alcançados pela avaliação. Os orientadores profissionais se preocupam em destacar tanto o conteúdo das escolhas relacionadas à carreira quanto ao modo como são executadas essas escolhas. (SPARTA; BARDAGI; TEIXEIRA; 2006)
Há uma distinção de conceito na discussão entre Orientação Profissional e Orientação Vocacional, mas essa diferença se dá apenas no Brasil, por conta da tradução de trabalhos e livros da área. Quando são textos de autores americanos e ingleses a tradução adere a palavra “vocacional” e quando são de autores franceses, frequentemente usam a palavra “profissional”. (SOARES, 2002).
Quando se aborda orientação vocacional, normalmente é pensado em um “chamado”, ou seja, algo que chama para um caminho já determinado, tal concepção considerada principalmente no senso comum. Dessa forma, é vista como uma orientação para uma profissão estabelecida. Mas é importante ressaltar que para descobrir essa vocação é necessário um trabalho clínico, incluindo conhecimento de si mesmo mais complexo e aprofundado. (SOARES, 2002).
A expressão orientação profissional é mais utilizada no Brasil e aborda duas questões: vocacional e ocupacional (profissão). E como afirma Bohoslavsky (1983) apud Soares, (2002). Essa orientação precisa responder aos “para quê” e “porquês” da escolha de estipulada profissão. O psicólogo aqui atuando como facilitador da escolha, ou seja, auxiliar a pensar, conscientizar dos fatores que interferem na escolha. Ampliando as opções do sujeito de acordo com suas possibilidades culturais, econômicas.
No assunto de Orientação Profissional a carência de bibliografias recentes é grande, o que deve incitar os profissionais de psicologia a realizarem mais produções e pesquisas sobre o assunto, pois é latente e gera muito sofrimento e movimento na vida de muitos jovens. Hoje existe uma grande quantidade de testes profissionais online, os quais são a primeira opção de muitas pessoas e podem gerar confusão e uma indecisão ainda maior. Podem influenciar as reais vontades e desejos dos sujeitos. Além disso, muitos jovens acreditam necessitar seguir os passos dos familiares, bem como atuar na área em que os pais ou responsáveis acreditam ser a mais lucrativa, ignorando completamente o quesito pessoal e de interesse da pessoa, o que pode gerar muito sofrimento e angústia, e normalmente leva o jovem à procura de ajuda qualificada.
A Orientação Profissional, apesar de ampla, ainda é vaga, já que outros profissionais podem realizar a Orientação além do psicólogo. O psicólogo, porém, tem papel fundamental nesse processo, pois é o único com a capacidade e autorização para aplicação de testes, e além disso, é o único com habilidade para interpretá-los e conciliar os resultados a vida do sujeito. Ademais, esse profissional deve levar em conta muito mais o processo de Orientação do que o resultado de testes ou técnicas. Deve também levar em conta o contexto em que vive o sujeito e seus conhecimentos prévios sobre o mundo do trabalho.
REFERÊNCIAS
KRAWULSKI, Edite. A orientação profissional e o significado do trabalho. Disponível em: . Acesso em: 10 ago. 2018.
LUCCHIARI, Dulce Helena Penna Soares. Pensando e Vivendo a Orientação Profissional. São Paulo: Sommus, 1993.
SOARES, Dulce Helena Penna. A escolha Profissional do Jovem ao Adulto. São Paulo: Sommus, 2002.
SPARTA, Mônica. O desenvolvimento da orientação profissional no Brasil. Disponível em: . Acesso em: 10 ago. 2018.
SPARTA, Mônica; BARDAGI, Marúcia Patta; TEIXEIRA, Marco Antônio P.. Modelos e instrumentos de avaliação em orientação profissional: perspectiva histórica e situação no Brasil. Disponível em: . Acesso em: 10 ago. 2018.

Autoras são acadêmicas de psicologia da 3ª serie da UNIPAR – Cascavel/PR
Sarah C. Klein
Dayane P. Pereira
Letícia P. Zaneti
Drielly S. Freitas
Artigo de responsabilidade das autoras

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