PLANTÃO PSICOLÓGICO: UMA ESTRATÉGIA PARA A URGÊNCIA
O plantão psicológico surgiu em
1969 como uma modalidade de atendimento proposta pelo Serviço de Aconselhamento
Psicológico (SAP) de Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, sob
a coordenação da professora Rachel Lea Rosenberg tendo inicialmente o objetivo
de oferecer um atendimento diferenciado à clientela que procurava o serviço,
funcionando como uma alternativa às longas filas de espera (REBOUÇAS; DUTRA,
2010).
A implantação deste serviço
aconteceu enquanto lutava-se no Brasil pelo reconhecimento da profissão do
psicólogo e também com o aparecimento da Psicologia Humanista de Carl Rogers,
que se opunha às correntes psicológicas vigentes, psicanálise e o behaviorismo.
Assim sendo, o plantão psicológico é baseado no modelo proposto por Carl Rogers
de aconselhamento psicológico, sendo este inicialmente voltado a examinar por
meio dos testes psicológicos a personalidade. Posteriormente com sua prática questionou
esse modelo e propôs uma mudança de perspectiva, passando a focar o cliente e
não mais ao problema, dando importância a relação estabelecida ao invés do
instrumental de avaliação, preocupando-se com o processo e não o resultado
(REBOUÇAS; DUTRA, 2010).
O SAP foi idealizado pelo Dr.
Oswaldo de Barros Santo devido a necessidade de oferecer aos alunos da
disciplina de Aconselhamento Psicológico uma oportunidade de estágio e
atendimento psicológico à clientela (REBOUÇAS; DUTRA, 2010). Desde o final da
década de 60 tem passado por muitos desafios e reformulações, e segundo
Rebouças e Dutra (2010) apud Eisenlohr (1999), nos anos 80 passou por um
período de crise em função de algumas contradições existentes entre o que era
pensado sobre o serviço e o que acontecia na prática. Acarretou nessa época a
impossibilidade de acompanhar a demanda que surgiu, gerando uma longa fila de
espera, o que acabou inviabilizando a proposta real do plantão de um
atendimento imediato. Surgiu ainda problemas relacionados de infraestrutura
devido à interdição do local em que aconteciam os atendimentos e a equipe
viu-se obrigada a suspender as atividades do plantão por dois semestres.
Na década de 90, após a crise,
o serviço mantém suas características iniciais fornecendo atendimento
psicológico gratuito à população, sendo o plantão psicológico sua porta de
entrada e possíveis encaminhamentos, apresentando-se ainda como um espaço
enriquecedor para a formação profissional. (REBOUÇAS; DUTRA, 2010)
Segundo Rebouças e Dutra (2010)
ocorreu em 1987 pelo professor Dr. Miguel Mahfoud a primeira sistematização
pública do plantão psicológico, sendo este o primeiro a abordar o plantão
psicológico como uma modalidade clínica de atendimento e falando de sua
inserção nos diferentes contextos. Mahfoud descreveu o plantão psicológico,
desbravando-o e apresentando-o como uma prática possível de auxiliar o cliente
a ter uma visão mais ampla de si e do mundo, sendo acolhido em sua experiência
e no momento que esta se apresenta
Ressalta-se que o SAP é,
portanto, tido como referência ainda hoje a outros profissionais que inseriram
essa modalidade de atendimento, o plantão psicológico em outras instituições
como, hospitais, escolas, varas de famílias, delegacias e consultórios
particulares, como uma alternativa mais adequada para o atendimento às demandas
do mundo contemporâneo. (REBOUÇAS; DUTRA, 2010)
CARACTERÍSTICAS DO ATENDIMENTO
O plantão psicológico conforme
Rebouças e Dutra (2010) apud Cury (1999) apontam, é uma modalidade de
atendimento clínico-psicológico com caráter emergencial, estando aberto à
comunidade e sua demanda, tendo por função proporcionar um ambiente de escuta e
o acolhimento à pessoa em seu momento de crise. As autoras afirmam ainda que a
finalidade não é a resolução e/ou aprofundamento da problemática, mas sim em um
momento de compreensão do sofrimento do sujeito.
O plantão psicológico acontece
enquanto um espaço que a experiência de ambos os lados, cliente e plantonista,
onde o psicólogo apresenta-se enquanto alguém disposto, disponível e presente,
e não apenas enquanto o detentor do conhecimento técnico (REBOUÇAS; DUTRA 2010
apud OLIVEIRA, 2005). O que implica em manter-se com o sujeito, inclinando-se
na direção do sofrimento, permitindo-se afetar, e a partir desta experiência
compreender o outro que se apresenta (REBOUÇAS; DUTRA, 2010).
Rocha (2011) descreve o plantão
psicológico como um mergulho ao campo experiencial, que reconhece os sentidos e
a possibilidade de ressignificação das experiências, tendo uma implicação
direta do sujeito na escolha e no trilhar das rotas que no processo são
reconhecidas e criadas por meio desse encontro consigo mesmo e com o
plantonista. Ainda segundo a autora no plantão privilegia-se a melhor maneira
de cuidado que o sujeito possa encontrar e não aquela que o profissional julga
ser a mais adequada. Assim como em outras modalidades, a escuta qualificada
nesse atendimento é uma ferramenta primordial, é preciso escutar o indivíduo
que traz o problema, como está, como este lida com o que incomoda-o, quais
alternativas está vislumbrando ou não (ROCHA, 2011). Segundo Rocha (2011) apud
Rosenberg (1987), nesse momento privilegiar o problema apresentado pelo
indivíduo é sedutor e nos impulsiona a buscar uma solução, o que é uma grande falha,
pois ao encaramos um problema do sujeito como algo a ser resolvido tendemos a
pensar e decidir por ele, ao invés de acompanhalo em seu processo de
compreensão de sua demanda.
CONFIGURAÇÃO DO PLANTÃO PSICOLÓGICO:
OBJETIVOS, COMO OCORRE, FREQUÊNCIA E PARA QUEM?
O plantão é exercido por
profissionais que se disponibilizam a atender a quaisquer pessoas que deles
necessitem, em períodos de tempo que são previamente definidos e ininterruptos
(PAPARELLI; MARTINS, 2007 apud MAHFOUD, 1987).
Busca-se nesse atendimento
manter-se junto com o indivíduo no momento presente, nas problemáticas
emergentes, promovendo uma melhor avaliação dos recursos que pode
disponibilizar ampliando as suas possibilidades e visão frente a sua demanda.
(REBOUÇAS; DUTRA, 2010)
O indivíduo apresenta-se ao
atendimento da maneira que quer e pode, conforme suas possibilidades e
necessidades, conversando a partir do plantão quanto ao caminho que pretende
trilhar, se deseja voltar para mais um atendimento, se pretende encerrar e
caminhar sozinho ou se deseja um encaminhamento (ROCHA, 2011). Destaca-se ainda
que no plantão psicológico não tem o propósito de encaminhar os indivíduos, mas
esta é uma possibilidade se for um caminho desejado pelo indivíduo atendido,
assim o encaminhamento pode abranger inúmeras possibilidades não se
restringindo ao âmbito da psicologia ao considerar a complexidade da vida de
cada indivíduo (ROCHA, 2011 apud CHAMMAS 2009)
LOCAIS EM QUE DESENVOLVE-SE O PLANTÃO
PSICOLÓGICO
A clínica baseia-se em um ética
que amplia-se para além das paredes do consultório, nesse sentido o psicólogo
não deve está preso a um local ou atuação específica, podendo apresentar-se em
diversos locais, assim também o plantão psicológico. Esta modalidade de
atendimento apresenta-se como uma alternativa para prestar serviço que condiga
com esta nova postura da clínica contemporânea em que o psicólogo está
comprometido com a escuta e sensível às demandas que emergem, mesmo que seja um
encontro único, no entanto, destaca-se que não é uma psicoterapia alternativa e
nem busca substituir a mesma, mas sim uma prática profissional que pode ser
utilizada nos diversos campos, como CAPS (Centro de Atenção Psicossocial), PSF
(Programa de Saúde da Família), CRAS (Centro de Referência da Assistência
Social), hospitais, delegacias e demais instituições. (REBOUÇAS; DUTRA, 2010)
Objetivando-se acolher e
prestar a assistência precisa à população no momento de sua procura o psicólogo
independente de em que local esteja ou do nome que receba pode lançar mão desta
modalidade de atendimento (REBOUÇAS; DUTRA, 2010). Vale lembrar que o plantão
não é a solução para tudo, há muitos limites, em sua maioria advindos da
desigualdade social e da defasagem dos serviços públicos (REBOUÇAS; DUTRA, 2010
apud CURY, 1999). No entanto conforme Rebouças e Dutra (2010) configura-se como
um meio de alcance dos serviços psicológicos em diversos locais a uma população
que talvez nunca poderia acessar, proporcionando além de um ambiente de
acolhimento e de informações, o auxílio aos indivíduos apara uma maior
autonomia emocional, o esclarecimento acerca de sua realidade social e de seus
direitos enquanto cidadão.
CARACTERÍSTICAS
DO PLANTONISTA
Enquanto plantonista Doescher e
Henriques (2012) apud Safra (2004) apontam que torna-se fundamental ao
plantonista posicionar-se no “não-saber” para que a singularidade do indivíduo
que procura o atendimento possa aparecer. Os autores citam ainda que
contemporaneamente é comum que os indivíduos venham para o atendimento
classificadas em quadros psicopatológicos, o que neste momento emergencial
contaminam a escuta do plantonista e dificulta ou até algumas vezes impedem que
a singularidade do indivíduo se revele. Os autores destacam ainda a importância
do plantonista não ser tomado pela ânsia de ter de fazer algo, do intervir, e
estes com rapidez. Pois conforme os autores apontam nesse anseio por fazer algo
deixa-se a compreensão do ser-aí que apresenta-se perante a um desconhecido
buscando algo, que na maioria das vezes, nem ele próprio sabe ou consegue
nomear o que é, mas que incomoda este indivíduo significativamente levando-o a
buscar atendimento. Outro fator apontado por Doescher e Henriques (2012) ocorre
ao plantonista permitir que seus sentimentos pessoais misturem-se com o do
indivíduo em atendimento, resumem portanto as características para o
profissional do plantão psicológico como sendo: uma abordagem autêntica, a
compreensão empática, a escuta atenta e acolhedora, assim como, a aceitação
incondicional ao modo como o outro se revela, afinal o plantonista é o
profissional do encontro, do encontro com a diferença.
Contemporaneamente vigora-se
uma cultura do consumismo, do não sentir, do não ser, onde não dá-se à devida
atenção à dor, nem ao sofrimento e desespero negando-se aos indivíduos a vazão
a tais sentimentos, como se não fossem parte da existência humana, assim sendo
o plantão psicológico permite a pessoa desvelar a si mesma e a seus
sentimentos, sendo um espaço de acolhida podendo servir de um novo ponto de
partida (DOESCHER; HENRIQUES, 2012)
Portanto é competência ao
psicólogo disponibilizar ao que se apresenta-lhe, proporcionando escuta
qualificada e empática, buscando lado a lado com o indivíduo um modo de ser
autêntico, aberto às novas possibilidades e às novas descobertas ao longo desse
processo (DEUSCHER; HENRIQUES, 2012).
REFERÊNCIAS
BIBLIOGRÁFICAS
DOESCHER,
Andréa Marques Leão; HENRIQUES, Wilma Magaldi. Plantão psicológico: Um encontro com o outro na urgência.
Psicologia em Estudo, v. 17, n. 4, 2012.
PAPARELLI,
Rosélia Bezerra; NOGUEIRA-MARTINS, Maria Cezira Fantini. Psicólogos em
formação: vivências e demandas em plantão psicológico. Psicologia: ciência e
profissão, v. 27, n. 1, p. 64-79, 2007.
REBOUÇAS,
Melina Séfora Souza; DUTRA, Elza. Plantão psicológico: uma prática clínica da
contemporaneidade. Revista da abordagem Gestáltica, v. 16, n. 1, p. 19-28,
2010.
ROCHA,
Maria Cristina. Plantão psicológico e triagem: aproximações e distanciamentos.
Revista do NUFEN, v. 3, n. 1, p. 119-134, 2011.
Autoras
são acadêmicas da 3ª Serie do Curso de Psicologia da UNIPAR-Cascavel/PR
Andressa
Gomes
Eloísa
Pompermayer Ramos
Grazieli
Maria da Silva
Haryane
Nunes
Artigo
de responsabilidade das autoras.

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