TERAPIA FAMILIAR E SUA ATUAÇÃO PSICOLÓGICA


O presente artigo tem como finalidade abordar a temática da atuação psicológica no âmbito da terapia familiar. Cabe ressaltar que esta modalidade de atendimento corresponde a tratamentos voltados à famílias que apresentam “problemas” ligados a um ou mais pacientes onde a visão é de atuações nos contextos psico ou socioterapêuticos. (MIERMONT, 1994)
Segundo Doron e Parot (2001), a família é definida como um grupo de indivíduos que são ligados por laços culturais e biológicos (quanto à necessidade de sobrevivência). Freud e seus discípulos trazem uma perspectiva de membros da família como atores do desenvolvimento psíquico de um sujeito (uma visão ainda individual). Porém, a psicoterapia de família é pensada de maneira a envolver o coletivo, trazendo suas intervenções voltadas para uma família enquanto um sistema que é permeado por relações de trocas e interdependência entre os que o compõe, ou seja, não é uma soma das partes, mas sim um olhar sobre o todo. (MACHADO, 2012)
Para Miermont (1994) a terapia de família remete ao agregado de práticas e teorias que englobam os problemas individuais, familiares e sociais; assim como os transtornos de comportamento, práticas de delito, violência no âmbito social e familiar, confrontos de cunho interinstitucional ou transcultural. Tendo como finalidade o atendimento de pessoas doentes em conjunto com a família, trabalhando não somente um indivíduo, mas também seus membros e o ambiente no qual os mesmos circulam.

Contexto Histórico

O início desse modelo de atendimento clínico psicológico de acordo com as ideias de Relvas (1999) apud Machado (2012) deu-se nos Estados Unidos onde o contexto era de mudança nos paradigmas, acontecia uma passagem dos pressupostos analíticos para uma percepção no âmbito sistêmico, que trazia consigo uma ênfase no “é preciso reunir para compreender” o que faz entender o seu objeto de estudo a partir de suas relações e interações, havendo assim a substituição do olhar para as causalidades de modo linear para um olhar circular. Ou seja, não pode-se isolar o indivíduo do seu meio, já que estes passam por uma evolução de forma simultânea e se modificam com reciprocidade. Deve ficar claro a importância do contexto, e a noção de que a co-evolução é de extrema importância dentro da terapia familiar.
Essa etapa histórica que precede o movimento da terapia familiar para Castilho (s/a) é caracterizada por modificações de extrema importância na teoria e prática psiquiátrica. Neste momento a psicanálise já era reconhecida e estava consolidada como técnica para tratamentos. Em meados dos anos 50, a psiquiatria e a patologia foram de grande contribuição no ramo da terapia familiar, uma vez que começa-se a considerar a interação familiar como processo patológico existente na causa da esquizofrenia. (CASTILHO, s/a)
A história da prática em Terapia Familiar desde seu início monta-se muitas vezes da transformação de acasos que surgiam nas salas de terapia em abertura para organizar as narrativas e assim arquitetando abordagens. Essas descobertas afortunadas presentes na construção deste atendimento familiar são relatadas por diversos autores, que vão estruturando técnicas e posturas terapêuticas, ou seja, vão costurando as atuações. (GRANDESSO, 2008) Tendo em vista a falta de práticas específicas Relvas (1999) citado por Machado (2012) ressalta uma busca de noções básicas e teorias gerais que possam dar base à terapia familiar, noções estas que possam ser aplicadas para a compreensão da família e também do processo terapêutico.
Devido a todo este arcabouço histórico, atualmente a terapia de família estruturou-se desenvolvendo assim modelos de trabalho em diversas teorias psicológicas, dentre elas pode-se citar: existencialistas, comportamentais, sistêmicas, humanistas, entre outras. A atuação do terapeuta se dará de acordo com sua base teórica e o modelo familiar apresentado, bem como o psicólogo que atua no âmbito da terapia familiar deve buscar reformular práticas e interpretações cristalizadas, podendo assim apresentar possibilidades na hora da interpretação/ da observação do todo. (GOMES, s/a)

Modelo de famílias e intervenções

Com o passar do tempo, houve uma grande mudança na percepção de família, foram atribuídos novos conceitos, valores, novas dinâmicas e valorização dos diferentes tipos de identidade própria, o que resultou em uma diferente história de vida familiar. Observa-se que “as transformações levaram a alterações na família que deixou de ser um modelo tradicional prevalente, aparecendo novas formas de organização familiar tornando-se um fenômeno de caráter global e complexo.” (DIAS, 2000, p.82).
Na atualidade, novas concepções de família são abordadas, a evolução e a mudança caracterizaram um modo significativo onde o mundo atual não exclui a família. A mudança social acaba refletindo na instituição familiar, como por exemplo a diminuição no número de filhos, aumento de pessoas sós, famílias homoafetivas, monoparentais, multiparentais, entre outras.
O contexto de intervenção terapêutica tem completa relação com as transformações histórico culturais, pois historicamente, a família é produto da sociedade. A família é vista como um sistema equilibrado, sendo o que mantém a mesma são as regras do funcionamento. A intervenção desenvolvida a partir desse enfoque enfatiza uma mudança no sistema familiar, considerando a atenção comunicacional no momento atual.

Terapia Familiar Sistêmica

A intervenção familiar dentro do pensamento sistêmico dedica-se sobre a percepção do sujeito e da sua problemática embasando com seu contexto relacional. É uma intervenção que se origina com uma família em sofrimento que procura ajuda para entender e enfrentar a situação em que se encontra.
Esta abordagem visa disponibilizar técnicas de intervenção e recursos para conseguir superar fases difíceis da vida, sendo estas, acontecimentos inesperados ou mudanças inerentes ao percurso de qualquer família.
Há aqueles autores que enfatizam os aspectos estruturais do sistema familiar: limite e hierarquia, (L'Abbate, Frly, Wagner). Para Gomes (1986), a estrutura familiar é o conjunto invisível de exigências funcionais que organiza as maneiras pelas quais os membros da família interagem. Segundo Gomes (1986 apud Minuchin, 1982) foi quem propôs esse enfoque estrutural e desenvolveu sua teoria, através da análise dos padrões transacionais que se desenvolvem entre os vários subsistemas da família: o parental, fraternal, e o conjugal. Para ele, o comportamento sintomático tem a função de manter as regras de interação que controlam o estabelecimento de fronteiras e hierarquias, e, consequentemente, manter a patologia da família.
O objetivo da terapia sistêmica, nesse paradigma, é o de restabelecer a oportunidade de negociação entre os membros da família quanto ao uso do poder, evitando alianças transgeracionais (pai com filho, mãe com filho, avó com neto) e também de reorganizar as margem entre os vários subsistemas, apontando para fronteiras inadequadamente rígidas, ou difusas, e trabalhando no sentido de torná-las mais adequadas.
Segundo Gomes (1986) a teoria sistêmica também possui um modelo chamado estratégico, ele é mais voltado para o processo do que para a estrutura da família. Propõe a existência de regras familiares poderosas e controladoras do comportamento dos membros da família, no sentido de evitar a mudança. Para Gomes (1986) a intervenção terapêutica se dá através de estratégias que visam quebrar aquelas regras, via prescrição do comportamento sintomático, ou não.
O intuito principal da terapia familiar nesta abordagem é que o indivíduo “problemático” seja compreendido apenas como um representante de um problema no sistema familiar. A ênfase recai em modificar o problema em questão através de mudanças nas interações entre os membros familiares, ou seja, não depositando em uma única pessoa a “causa” de seus problemas.

Terapia Familiar Comportamental

A terapia familiar comportamental se dá por um processo minucioso com a exigência e/ou necessidade do sujeito e uma avaliação com a combinação terapêutica, a questão da empatia, resistência, comunicação e agilidades em revolucionar problemáticas além de se apropriar das técnicas utilizadas durante o tratamento.
Para Dattilio (2006), a destreza dos membros da família para resolverem conflitos e angústias em suas vidas corresponde em parte de alterar as crenças enraizadas dos familiares sobre o movimento individual e familiar ou sobre o que os terapeutas comportamentais se referem como esquemas. Estes esquemas bem como as emoções e os comportamentos, são uma parcela importante daquilo que forma a fábrica do funcionamento da família.
De uma maneira sólida e conciliável com a abordagem sistêmica, a abordagem comportamental das famílias é fundamentada na alegação de que os membros familiares são influenciados pelas suas emoções, pensamentos, intuições e comportamentos de cada um de seus membros. Em essência a este pensamento, Dattilio (2006) aborda que:
Conhecer o sistema familiar completo é conhecer as partes individuais e os meios pelos quais eles interagem. Na medida em que cada membro familiar observa as suas próprias cognições, comportamentos e emoções relativas à interação familiar, bem como os sinais referentes às respostas dos outros membros familiares, essa percepção leva à formação de suposições sobre as dinâmicas familiares, as quais depois se desenvolvem dentro de esquemas relativamente estáveis ou “estruturas cognitivas”.
Segundo Dattilio (2006), essas cognições, intuições, emoções e comportamentos podem evocar respostas de alguns membros, que constituem grande parte da interação momento-a-momento com outros membros familiares.
As observações dos componentes nas relações familiares possibilitam a informação que dá sentido ao desenvolvimento de seus esquemas familiares, essencialmente quando um membro específico faz a percepção de tais interações por diversas vezes. Para Dattilio (2006) o padrão que o indivíduo conclui de tais observações serve como uma base para formar um esquema ou molde que, subseqüentemente, é usado para entender o mundo da relação familiar e para antecipar eventos futuros dentro da família.
As etapas da terapia familiar dentro da abordagem comportamental consiste em realizar uma avaliação detalhada, determinar a frequência básica do comportamento problemático, orientar e proporcionar informações sobre o sucesso do tratamento e estabelecer estratégias específicas para mudanças do que está sendo tratado de acordo com cada família. (BERTANI, s/a).

Desafios das atuações

O trabalho com a comunicação já faz parte da terapia familiar, porém este fator por si só, dificilmente irá resolver as demandas apresentadas pelas famílias. Um dos cuidados que o terapeuta precisa ter é quando instiga os membros da família a ouvirem uns aos outros, pois há vezes que o terapeuta pode interromper quando um mebro da família estiver falando e solicitar que outra pessoa relata seu ponto de vista para os demais ouvirem também, assim “a pessoa que foi interrompida pode escutar de má vontade” (Nichols e Michael, 2007).
Gomes (1986) aponta algumas dificuldades e desafios referentes a terapia familiar, como o trabalho com faixas etárias diferentes, que formam um grupo com uma dinâmica específica e que o terapeuta passará a fazer parte. Outro aspecto apresentado é o grande número de encaminhamentos para terapia individual em casos na qual a terapia familiar seria efetiva e a mudança de tratamento tem resistência, pois tem um custo mais elevado e o foco está voltado para o paciente individual, o que faz a família não concordar com a mudança.
Entretanto, Nichols e Michael (2007) ressaltam que anteriormente, os terapeutas familiares acreditavam que sua abordagem poderia ser utilizada em quase todos os problemas, porém, atualmente esta perspectiva não é válida pois está cada vez mais comum o uso de técnicas específicas de acordo com diferentes populações e problemas apresentados. Um dos casos apresentados pelos autores é a violência conjugal, os mesmos afirmam que “juntar um homem violento e sua parceira abusada e convidá-los a tratar de questões contenciosas põe a mulher em risco e dá ao agressor um palanque para autojustificativas”. Outro ponto destacado é que nos casos de abuso sexual de crianças recomenda-se o apoio a família e ao concomitantemente proteger as crianças, porém “quando estes dois objetivos parecerem incompatíveis - por exemplo quando o pai estuprou a filha - a proteção à criança tem precedência” (Nichols e Michael, 2007). Segundo Nichols e Michael (2007).
Se o terapeuta desconfia de violência e abuso, sessões individuais sigilosas permitem que os membros da família revelem o que não falariam na frente de toda a família. O ponto é lembrar que a terapia familiar é mais uma maneira de olhar para as coisas do que uma técnica baseado em atender sempre toda a família.

Referências:
CARNEIRO, F. T. Terapia Familiar: ​das divergências às possibilidades de articulação dos diferentes enfoques. Disponível em: Acesso em: 04, set. 2018.
CASTILHO, V. B. F. História, fundamentos e novas tendências da terapia familiar sistêmica. Disponível em: . Acesso em: 29 ago. 2018.
DATTILIO, F. M. Reestruturação de esquemas familiares​. Rev. bras.ter. cogn. v.2 n.1 Rio de Janeiro jun. 2006. Disponível em: . Acesso em: 04.set.2018.
DIAS, M. Um olhar sobre a família na perspectiva sistémica: ​o processo de comunicação no sistema familiar. Disponível em: Acesso em: 04, set.2018.
DIAS, M. A família nunca sociedade em mudança: ​problemas e influências recíprocas. Disponível el em: Acesso em: 04, set.2018.
DORON, R.; PAROT, F. Dicionário de psicologia​. Lisboa: Climepsi. 2001. GOMES, H. S. R. Terapia de família​. Psicologia, ciência e profissão. 1986, vol.6, n.2, pp.29-32. Disponível em: Acesso em 03 set. 2018.
GRANDESSO, M. A. Desenvolvimentos em terapia familiar​: das teorias às práticas e das práticas às teorias. Disponível em: . Acesso em: 28 ago. 2018.
MACHADO, M. Compreender a terapia familiar​. Disponível em: . Acesso em: 28. ago. 2018.
MIERMONT. J. Dicionário de terapias familiares​: teoria e prática. Porto Alegre: Artes Médicas. 1994.
NICHOLS, M. P.; SCHWATZ, R. C. Terapia familiar​: conceitos e métodos. 7 ed. Porto Alegre: Artmed, 2007.



Autores são acadêmicos da 3ª serie do Curso de Psicologia – UNIPAR Cascavel/PR
Eduardo Mezzaroba Werlang 
Gabriela Boniatti Surdi
Carla Sabrina Gomes Leal de Oliveira
Any Louize Aires

Responsabilidade do artigo são dos autores.

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